Roberto Carlos em Detalhes
Pivô de uma das maiores polêmicas da atual literatura brasileira, Roberto Carlos em Detalhes teve (ou tem) tudo para se tornar um best-seller – ou um “best downloaded” já que na rede é possível encontrar a obra em versão pdf, enquanto permanece proibido de ser comercializado.
O livro traz a história de um dos artistas brasileiros mais populares de todos os tempos, e que sempre fez questão de manter sua vida particular longe dos holofotes. Soma-se a isto a ordem judicial – pedida na justiça pelo próprio Roberto Carlos - que impede o livro de ser vendido legalmente, o que torna o produto ainda “melhor”, já que todos sabemos que o que é proibido é mais gostoso.
Elaborado depois de uma extensa pesquisa e mais de duas centenas de entrevistas exclusivas feitas pelo autor e fã, Paulo César de Araújo, Roberto Carlos em Detalhes é um documento da música popular brasileira (em minúsculas mesmo, pois aqui não falo do gênero MPB, mas da música feita para o povo, da música que não é erudita). O autor usa Roberto Carlos como um gancho para contar a história da mpb, desde seus primórdios, passando pela explosão da bossa-nova e do rock n’ roll.
Como sempre – pelo menos para mim – o delicioso do livro está nas (es)histórias. Não tem como ficar indiferente aos causos da infância do Rei Roberto, das molecagens de Tim Maia – para os que não sabem, Roberto, Erasmo e Tim Maia eram da mesma banda, os Sputiniks, antes da fama – dos perrengues que todos eles passavam para fazer um showzinho que fosse, enfim, das situações que mostram que todos eles, Roberto, Erasmo, Tim, Caetano e Gil são tão mortais, imperfeitos, com seus medos e manias, quanto nós.

O autor fez aqui um trabalho de pesquisa minucioso, não deixando nada solto. A narrativa corre tranqüila, como era de se esperar de um autor que é fã do seu objeto de pesquisa e que, conseqüentemente, tem total controle sobre o conteúdo a ser apresentado. O livro, inclusive, começa com o autor usando um fato marcante de sua vida para introduzir o leitor ao universo Roberto Carlos.
No campo das curiosidades, fiquei impressionado com alguns fatos relatados na obra, a exemplo da realização de uma passeata contra a guitarra elétrica, organizada por vários artistas da bossa nova, como Edu Lobo - segundo eles, a guitarra elétrica era a arma das forças maléficas do imperialismo americano contra a cultura brasileira - e que contou com a presença de tantos outros, como Gilberto Gil. O engraçado é que Gil, pouco depois, se integrou ao movimento Tropicalista, que usava e abusava da famigerada guitarra elétrica; enquanto Edu Lobo – e todos da bossa nova – eram grandes entusiastas do Jazz, gênero musical tipicamente americano.

Outra passagem que me deixou bastante entusiasmado, foi o plano que Caetano e Bethânia bolaram para dar o ponta-pé inicial do Tropicalismo. Ao vivo, no bossa-novista Fino da Bossa – programa televisivo que concorria com a Jovem Guarda - Bethânia iria entrar em cena caracterizada de rocker, empunhando uma guitarra elétrica e cantando uma música de Roberto Carlos. O problema foi que o plano acabou sendo descoberto pela patrulha da bossa nova, que conseguiu impedir os irmãos baianos de realizarem o que pretendiam. Teria sido brilhante. Um soco na cara dos tão “nacionalistas” da bossa-nova, e em pleno território deles.
Um livro altamente indicado para todos: fãs de Roberto Carlos, fãs da mpb (em minúsculas, lembram?), fãs de história e qualquer brasileiro que queira (todos deviam querer) saber mais sobre a história de seu país. Como já foi dito, o livro não pode ser vendido, porém é facilmente encontrado no e-mule mais perto de você.






Maio 20th, 2008 at 11:58
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