Ler Devia Ser Proibido

Entrevista exclusiva com Guiomar de Grammont

Depois de meses procurando, eu consegui o contato da escritora Guiomar de Grammont. Para quem não sabe, foi ela a autora do texto Ler Devia Ser Proibido que deu origem ao nosso blog. Sempre muito ocupada em eventos literários, ela gentilmente concedeu a entrevista através de e-mail.

As perguntas foram elaboradas pelo jornalista e músico Gabriel Oliveira, que também é um dos colaboradores da nossa equipe. A seguir confira a entrevista completa  e fique conhecendo um pouco mais dessa incrível escritora:

LERDEVIASERPROIBIDO - No momento, você coordenou o Café Literário da primeira Bienal do Livro de Minas Gerais, que aconteceu entre 15 e 25 de maio. Quais os prós e os contras de estar nesta posição? 

Grammont - Creio que o lado positivo é poder estar em contato com autores que admiro muito, criar temas e discuti-los com eles. Gosto muito de criar a programação: é muito prazeroso. Depois, tenho que estudar quais autores poderia chamar e isso também é interessante. O lado mais difícil é quando começam os contatos e muitos não aceitam participar, por questões de disponibilidade, etc. O trabalho também exige demais da gente, porque o tempo é um fator que pressiona muito.

LDSP - Li uma entrevista sua para o Vitrine Literária, na qual você dizia que “nem sempre o que se publica é o que vale a pena e muitos ótimos autores ficam tão relegados ao esquecimento que acabam parando de produzir ou produzindo menos”. Num evento como a Bienal, quais os critérios que decidem quais autores participarão? Como a Bienal contribui para que os autores menos divulgados possam expor suas obras?

Grammont - Na Bienal, procuro sempre equilibrar convites a autores ou personalidades midiáticas, com autores pouco conhecidos do público e da mídia. A Bienal não apenas faz com que estes se tornem mais conhecidos, como promove, indiretamente, um grande encontro entre as pessoas e os livros. As pessoas que vão às Bienais compram livros dos mais diversos autores, não apenas aqueles que estão na programação. E, muitas, nunca tiveram interesse pelo universo da leitura. Por isso, é importante utilizar todos os mecanismos possíveis para atrair o público para as Bienais.

LDSP - Ainda sobre a questão de falta de espaço para novos (e talentosos) autores, me lembrei de uma declaração que o Chico Buarque deu, dizendo que no Brasil algumas pessoas (de renome) vivem de especulação. Soltam na mídia que estão escrevendo um livro e de repente estão em todos os meios de comunicação, recebendo uma atenção enorme. Você concorda com esta declaração? Se realmente isto acontece, o que fazer para mudar?

Grammont - Não sei se isso acontece porque, de fato, como estou sempre lendo livros, acompanho pouco as notícias de outros meios de comunicação. Mas a quem e a quê serviria mudar essa situação? Na verdade, é bom que o fato de escrever um livro ainda seja percebido como algo interessante em uma sociedade onde as pessoas parecem cada vez mais afastadas do mundo dos livros.

LDSP - Sobre sua carreira, de 1986 (ano em que você concluiu sua graduação) até 2008 foram 22 anos. Neste tempo você concluiu especialização, mestrado e doutorado; publicou livros, lecionou em universidades, publicou revistas, enfim, manteve-se ativa (super-ativa até). O que te impulsiona a estar sempre vivendo a sua profissão?

Grammont - Sou uma pessoa hiper-ativa intelectualmente. Estou respondendo a essa entrevista, agora, em uma  madrugada de insônia em que já li por algumas horas. Mas não é apenas isso: sou ultra-idealista. Não me conformo com as mazelas do mundo, tenho uma enorme angústia em relação à sociedade de consumo e de exclusão. Sou preocupada com os mais diversos assuntos, da preservação de cidades como Ouro Preto até a questão ambiental no mundo. Acredito de verdade que, se todos estivessem se movimentando em direção de um mundo melhor, as coisas seriam diferentes. Mas o individualismo é uma das características mais marcantes da nossa era.

LDSP - De onde surgiu seu gosto pela literatura?

Grammont - Minha avó Guiomar, de quem herdei o nome, era uma grande poeta.  Me lembro de ir, encantada, muito criancinha, ao lançamento do livro dela. E a pessoa que mais me aproximou da literatura foi meu pai, que estava sempre comentando comigo o que eu lia e escrevia.  Mas os livros também nos levam sozinhos, nos puxam pela mão para mergulhar neles. Muito jovem, eu lia de tudo que me caía nas mãos, de Monteiro Lobato a Dostoievski.

LDSP - Você acha que a forma atual das escolas “incentivarem” a leitura é a correta? Pergunto isto, porque quando estava no colégio, os livros que nos passavam eram escolhidos somente levando-se em conta a importância do autor. Se dependesse da escola, creio, atualmente teria total aversão à leitura. Qual seria a forma ideal de se “capturar” novos leitores nas escolas?

Grammont - Concordo com você sobre as escolhas mal-feitas, muitas vezes, inadequadas para cada idade. Houve um projeto, muito interessante, implementado em Minas num certo momento, que previa a doação de livros de autores brasileiros para crianças. Acho que a criança precisa ter acesso aos livros, precisa que eles sejam dela, para guardar e reler quando quiser. Eu me lembro do amor que tinha pelos meus livros e de como, mesmo adorando ler na Biblioteca da escola, eu preferia reler os meus.

LDSP - Ainda sobre o incentivo à leitura, o preço dos livros para o consumidor é muito alto – assim como o dos discos, cinema, enfim, arte em geral – para o padrão brasileiro. Você acha que, no Brasil, cultura é um artigo de luxo? Quais as saídas, na sua opinião, para este problema dos altos preços?

Grammont - Não sou tão abalizada para falar sobre esse assunto, mas creio que as tiragens seriam muito mais baratas se as pessoas lessem mais. Além disso, seriam criadas mais edições de bolso e com papéis mais baratos. Além disso, o problema é de outra natureza: as pessoas é que teriam que ganhar melhores salários e os governos deveriam se preocupar muito mais em reduzir as desigualdades sociais. Enfim, creio que não é o preço do livro o que impede as pessoas de lerem mais, uma vez que elas consomem outros produtos em larga escala. É preciso um esforço coordenado de toda sociedade em prol da leitura.
LDSP - Sobre o seu texto Ler Devia Ser Proibido – obra que inspirou a criação do nosso blog – a impressão que me dá ao lê-lo é a de que ele foi resultado de um “exorcismo de demônios” para você, um desabafo emocionado sobre como a literatura é tratada no Brasil por uma autora apaixonada pelo seu ofício. Estou certo na minha análise? Se não, o que a motivou escrever o texto?

Grammont - Sim, você tem toda razão, mas não o escrevi num momento de desabafo. Na verdade, foi uma encomenda para uma coletânea sobre o assunto e eu buscava uma forma de ser original em um tema em que é difícil não ser repetitivo e entediante. Daí o recurso à ironia, espontâneo, não calculado, também presente na minha literatura, pois Machado de Assis foi o autor que mais li na minha adolescência.

LDSP - Ainda sobre o Ler Devia Ser Proibido, tem uma parte em que você ironiza que “ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem”. Há 30 anos atrás, Raul Seixas declarou em uma de suas canções: “é pena eu não ser burro, não sofreria tanto”. Indo para o lado das teorias da conspiração, você acha que o não incentivo à leitura por parte dos governos é intencional? Se não, por que, na sua opinião, ainda não se desenvolveu uma política de incentivo eficiente?

Grammont - Também não tenho tantos elementos para falar do assunto, mas acho que, realmente, falta interesse.  A leitura, muitas vezes, não é percebida pelo governo como uma forma de melhorar a qualidade de vida das pessoas.  Há pessoas bem intencionadas, mas seria necessário um esforço muito mais intenso. E a televisão é um meio poderoso que poderia estar mais a serviço desse propósito.

LDSP - Uma pergunta filosófica: você acha que a ignorância é fruto da falta de leitura ou a falta de leitura é fruto da ignorância?

Grammont - Acho que é um círculo vicioso, ambos são verdade,  exatamente como você escreve.

LDSP - Em outra parte do Ler Devia Ser Proibido, você diz “Antes estivesse ainda a passear de quatro patas”. Você não acha que atualmente, com os Créus, Big Brothers, Mulheres Melancias e afins, metaforicamente nós estamos de quatro?

Grammont - É possível (rs). Felizmente, não todo mundo, espero.

LDSP - Tenho bom conhecimento da indústria fonográfica e o caos em que ela está imersa hoje. Os diretores culpam a pirataria mas, na verdade, os grandes culpados foram eles mesmos. Em geral são meros vendedores, não possuem respeito algum pela música, só se interessam pelo artista que vende 2 milhões, enquanto o que vende 200 mil está fora da jogada. Sob este prisma, como anda a indústria dos livros? Você acha que ele caminha para o mesmo caos da dos discos?

Grammont - Estamos na era em que a lógica do mercado impera, infelizmente e essa lógica nem sempre acompanha a qualidade.  Mas há mecanismos para superar as dificuldades, tais como o que você menciona na sua pergunta seguinte: a internet.

LDSP - Ainda sobre a indústria, a internet revolucionou a forma de se lançar e divulgar uma obra. Como ela pode ser utilizada em prol dos autores que não têm acesso à chamada grande mídia?

Grammont - O acesso é livre, tanto para produzir textos quanto para lê-los, e isso é maravilhoso. O autor internauta tem à sua disposição milhares de mecanismos para divulgar sua obra, desde blogues a jornais eletrônicos.  E convém que seja criativo e utilize-os bem e de forma variada.

LDSP - A grande questão, creio, será descobrir uma forma que garanta rentabilidade para o autor que queira usar a internet como meio de propagar sua arte, porque as pessoas estão se acostumando a ter acesso aos conteúdos gratuitamente. Quais soluções você vê para que os autores “sem publicidade” consigam viver de suas obras na internet?

Grammont - Realmente não sei. As grandes editoras internacionais começam a disponibilizar as obras na internet porque percebem que isso ajuda a vendê-las depois. Na minha opinião, para se manter como o espaço democrático que é, a publicação na internet deveria se manter o mais afastada possível das relações econômicas.

LDSP - E o que você acha da política atual para captação de recursos na área cultural? Sob este aspecto, como você avalia o trabalho do Ministro Gilberto Gil?

Grammont - Não acompanho bem política, infelizmente, não tenho muito a dizer sobre o trabalho do Gil como ministro. Conheço-o pessoalmente e simpatizo muito com ele, acho que tem boas intenções.  Sobre as Leis de Incentivo, acho que deveriam ser estudados mecanismos para ampliar o acesso aos benefícios que elas trazem para o meio cultural e artístico.

LDSP - Para você, uma autora premiada e profissional de renome no meio literário, quais as dificuldades que você enfrenta quando quer publicar um livro? E para um autor ainda desconhecido? Que conselho você daria para quem está começando neste ofício?

Grammont - Ainda luto para publicar. Envio a obra aos editores, luto pela divulgação dela.  Hoje, conhecendo mais de perto o meio editorial, percebo que os editores dificilmente dão atenção a obras que chegam pelo correio. É preciso que venham recomendadas por alguém ou que o autor conheça pessoalmente alguém na editora. Meu conselho aos autores desconhecidos é que paguem pela publicação de suas obras ou tentem realizá-las sozinhos, com apoio de amigos e meios próprios. Hoje não é tão caro fazer um livro e é quase impossível publicar sendo estreante, infelizmente.

LDSP - Agradecemos genuinamente a atenção que você nos deu para a realização desta entrevista. Gostaria agora de deixar este espaço livre para que você faça qualquer comentário que queira. Algo que você julgue relevante, mas que não foi contemplado na entrevista, algum recado, enfim, o espaço é seu. 

Grammont - Vamos à luta, tanto autores, quanto leitores ou pessoas conscientes em geral, quem espera não alcança!

Este post foi escrito Terça-feira, Junho 3rd, 2008 as 09:30 e está arquivado na categoria Destaque, Entrevista, Excelentes. Você pode seguir eventuais respostas a esta entrada através do RSS 2.0. Você pode deixar uma resposta, ou trackback a partir do seu próprio site.

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6 Responses to “Entrevista exclusiva com Guiomar de Grammont”

  1. Wagner Martins Says:
    Junho 3rd, 2008 at 10:07

    Maravilhosa entrevista …
    Foi-me revelado algumas coisas sobre o meio literário que em mim havia dúvidas. Novas portas foram abertas e outras corretamente fechadas.
    Adorei.

  2. Marina Garcia Says:
    Junho 3rd, 2008 at 10:28

    Entrevista magnífica!
    Já simpatizava com a autora antes, principalmente por dar origem ao nosso Blog, agora realmente posso aplaudi-la!
    Clareza e sinceridade nas respostas, Grammont tem muito à acrescentar para as pessoas!

    Vocês podiam listar aqui as obras da autora, já publicadas.

  3. Sergio Campos Says:
    Janeiro 30th, 2009 at 15:23

    Magnífico, essa mulher é demais, pessoas assim nos dá força diante de tanta coisa inútil.
    Queria saber da possibilidade de transcrever essa bela entrevista para meu blog.

  4. planetapesquisa@ Says:
    Agosto 6th, 2009 at 19:52

    Obrigado pela generosa atenção !

    Nossa ideia é: A parceria das empresas com as editoras, estes colocarem seus comerciais nos livros.

    Porque a imprensa televisiva não têm interesse de insentivar a leitura ? - Não querem perder espaço,já que seus dias de gloria está com tempo contado !

  5. Miriam de Sales Oliveira Says:
    Abril 18th, 2010 at 13:32

    Achei a entrevista excelente e elucidativa.
    Sou escritora baiana e gostaria de ter um contato c/ a Guiomar Grammont.
    Seria possível a vcs. passarem meu e-mail p/ela?
    Agradeço
    Miriam de Sales Oliveira
    Membro do Comitê Executivo da CBaL
    Membro da Apolo Academia de Letras

  6. Rômulo Ferreira Says:
    Julho 29th, 2010 at 22:00

    otimo, muito boa a entrevista com a Guiomar.
    parabens!

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